As vantagens de ser invisível

Foto: Depositphotos

“O que um juiz aprende ao trabalhar como faxineiro por um dia”. Era esse o título da reportagem que li semana passada, sobre um projeto do Tribunal Regional do Trabalho do Rio de Janeiro, que visa melhorar a empatia de juízes e desembargadores. Para isso, eles passam um dia na pele de outros trabalhadores, como faxineiros, garis, telefonistas e ajudantes gerais.

Houve quem aderisse à iniciativa, mas ela também enfrentou resistência. “Prestei concurso público para isso?” e “o que o juiz ganha com isso?” foram alguns dos questionamentos mais frequentes. As perguntas evidenciam o status de determinadas profissões e a invisibilidade social a que são submetidos os trabalhadores de outras.

Não participei do projeto, mas vivi uma experiência semelhante durante dois anos e meio, quando morei na Bélgica para fazer um mestrado. Eu precisava me sustentar e o euro, assim como hoje, valia quase cinco vezes mais que o real. Tive de aceitar o emprego que mais havia: o de faxineira.

De repente, deixei de ser uma jornalista que andava de salto, perfumada e escovada, para me tornar “a moça da limpeza”.

Eu era aquela que entrava muda, fazia o serviço pesado, saía calada e de quem ninguém se lembrava do nome nem do rosto. Trabalhava na chuva, no sol ou na neve, sem poder reclamar ou fazer cara feia.

Foi um choque para minha vaidade, mas também uma grande lição de vida. Por incrível que pareça, há vantagens em ser invisível. Você entende que tudo é transitório e que, muitas vezes, as relações que as pessoas estabelecem são por interesse e não pela sua essência. Você constata que todos têm seu valor e se torna mais humilde e resiliente.

Ontem, cumprimentei a garçonete da cafeteria e elogiei a cor do batom. Pouco depois, ela foi até minha mesa e agradeceu: “Ninguém tinha me dado ‘bom dia’ hoje. Elogio, então, não recebo há meses. Obrigada”. Fiquei emocionada por saber que algo tão pequeno a deixou feliz. Não me custou nada, mas ela disse que para ela valeu ouro.

É isso: empatia é de graça e quem mais ganha é quem oferece.

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