A filha do dono…

Foto: Arquivo pessoal

*Fernanda Tavares

Quando tinha quinze anos pedi uma bolsa caríssima ao meu pai de presente de Natal. Ele, que é empresário, lançou o desafio: trabalhar o mês das férias na loja dele para ter o dinheiro da bolsa. Como filha do dono, achei que iria ser vendedora, mas não. Meu pai me colocou para lavar chão, vitrine, fila de banco, cartório, servir cafezinho.

Eu achei que estava pagando meus pecados, filha do meio tem essa questão, viu? É o eterno drama de achar que a mais velha tem privilégios e o mais novo é o protegido. Na época, não tinha maturidade para entender que naquele momento meu pai me ensinava sobre o futuro e topar desafios.

Foi um mês intenso. Ele não me deu moleza. Me colocava para esfregar o chão direito, a ter postura ao servir o café dos clientes. Ali desempenhei tarefas que eu não queria, e que só hoje eu tenho a maturidade para entender e agradecer. Nem tudo é como sonhamos. Mas há algo bom nas lições, né? É preciso otimismo.

Uma grande cliente outro dia falou: “Fernanda, naquela época, achava que seu pai estava lhe castigando ao te colocar para limpar o chão. Essa filha do Tavares deve dar um trabalho danado!” Isso foi motivo de boas risadas.

Nem tudo é o que parece. Julgamos, sem perceber, que determinadas tarefas são ligadas à incapacidade do próximo. Criticamos o erro, mas não ensinamos. Hoje, enxergo que o exercício diário da empatia vale mais a pena que a missão de apontar falhas.

No mercado de trabalho. Nas nossas relações. Uma questão do passado me ajudou a construir uma visão de futuro. Talvez seja por esse lado. Reavaliar nossa conduta. Lá atrás, o dono me orientava. Hoje, ele me ouve. A vida tem disso, os seus ressignificados…

*Fernanda Tavares é do tipo divertida, viciada em sorvete e aprendeu a lidar com as suas emoções. Hoje, gerencia o stress com maturidade e boas gargalhadas.

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