Eu não sei perder

Renata Varandas
Foto: Arquivo pessoal

De uns tempos pra cá, vinha achando que estava seguindo por um caminho um pouco mais sólido da espiritualidade, se é que concretude e espiritualidade cabem na mesma frase. Derrapei e caí. Tombo feio.

O budismo encara perdas como ganhos e eu vinha fazendo este mesmo discurso para tentar me convencer de que, de fato, acredito nisso. Teorias funcionam bem, na teoria. Na prática, elas só funcionam na teoria.

Perder dói e ninguém gosta. Perdas só são boas quando resultam em alívio e mesmo assim, o sentimento inicial é de dor. A diferença é a forma com que as pessoas encaram suas perdas e eu, está comprovado, encaro muito mal.

Há poucos dias, a mãe de uma amiga querida faleceu. Nunca perdi ninguém tão próximo e me doeu muito só de tentar mensurar a dor dela. Concluí: eu não aguentaria. Meu compadre está com a mãe em coma. Foi para Minas Gerais passar o Reveillon com ela, apenas os dois. Chorei todas as vezes que imaginei aquela cena.

Eu não aguentaria. Meu cachorro ficou muito doente. Por alguns dias, achei que ele não resistiria e nem eu. Me desesperei. Fiz promessa, mandinga, macumba e o que mais foi preciso para que eu não sentisse a dor da sua perda.

Quando fiquei doente, 10 anos atrás, agradecia a Deus pela enfermidade ter me acometido e não a uma pessoa muito próxima. Prefiria (e ainda prefiro) correr o risco a ter que lidar com a possibilidade da perda do outro.

No jogo da vida, concluo que, além de não saber lidar com perdas, também sou extremamente egoísta. Em todas as situações pensei/penso em mim: eu não vou aguentar. Eu não vou resistir. Eu. Eu. Eu. Definitivamente, eu até posso me perder, mas eu não sei perder ninguém.

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