Quem ainda não chorou?

Repórter Renata Varandas durante trabalho no Palácio do Planalto
Renata Varandas no Palácio do Planalto (Foto: Arquivo pessoal)

Renata Varandas

Sabe quando o caminhão chega na casa nova, deixa todas as caixas e os móveis, tudo amontoado em um único cômodo e vai embora? Todas as vezes que fiz mudança, essa cena sempre foi seguida do mesmo questionamento:

“E agora, por onde devo começar?” Invariavelmente, após essa pergunta, me batia um sentimento de vulnerabilidade em meio a caixas e incertezas.

Em todos esses dias, atolada em notícias sobre coronavírus, tenho tentado definir o que vinha sentindo, sem sucesso. Me via só, cheia de caixas em volta, sem saber o que fazer com tudo aquilo. Será que abro a caixa das informações? E se eu abrir, sem querer, a caixa do medo? E se eu não encontrar a caixa da sanidade? E se…?

Conversando com meu terapeuta, conseguimos clarear meus sentimentos. Na verdade, o momento atual é de um remember de dez anos: “É como quando você estava internada. Não havia certeza do dia de amanhã”, ele disse. Obviamente, ninguém neste mundo tem certeza nem do minuto seguinte, mas até como forma de sobrevivência, fingimos ter o controle da vida em nossas mãos.

Tem coisa mais petulante que colocar o relógio pra despertar no dia seguinte? Que certeza é essa que temos que amanhã acordaremos? Mas colocamos. E parcelamos apartamento em 30 anos, fazemos planos para festa de aniversário, para a aposentadoria na praia.

Quando se é de uma profissão considerada “atividade essencial”, sou jornalista, sair de casa não é vantagem em meio a uma pandemia, é dever. Não trabalhamos com “eu não vou”. Apenas vai porque é fundamental.

Saio de casa todos os dias com medo. Era como quando estava internada. O dia acabava e eu pensava: mais um dia vencido. E amanhã, será que vai ser melhor? E tinha dias que amanhã era melhor que hoje. Outros dias, hoje tinha sido melhor que amanhã. Todos os dias eram incertos e no dia em que tive alta, não havia melhorado. Só não adiantava mais ficar ocupando um leito.

Acho que é por isso que temo quando me deparo com um mundo de caixas de informações. Como será amanhã? E quando tivermos alta, sairemos ilesos ou teremos sequelas? A única certeza é que, em algum momento, cada um de nós vai chorar, seja de saudade, de tristeza, de desespero, de solidão. Pra falar a verdade, usei o verbo errado.

A pergunta certa é: quem ainda não chorou?

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