Quarentena: não julguem, ao contrário, deem um desconto às mães

Foto de Thaise e a filha para o texto sobre quarentena e mães
Foto: Arquivo pessoal

*Thaise Brasil

Vivemos um momento que jamais esqueceremos. Ontem mesmo, meu marido e eu nos indagávamos quanto ao mundo em que minha filha de dois anos e meio cresceria. Hoje são mais de 70 dias que estamos em casa, é estranho. Saímos muito pouco, quase nada! E quando o fazemos é rápido, com máscaras e muito argumento.

Aos adultos, a imposição da máscara incomoda, é desconfortável, mas entendemos que é necessário. Explique isso para uma criança que agora não pode mais ser uma criança em sua amplitude.

“Mamãe, tá tudo fechado. O parquinho tá fechado”.

Ela já afirma, sequer pergunta ou pede para sair. Outra novidade: o ser humano se adapta ao seu mundo e, no nosso pequeno apartamento, um novo e incrível mundo acontece.

Que feliz é a pureza e criatividade das crianças, almofadas e sofá viram um escorregador, a cama ou bola de pilates um pula-pula e assim por diante. Fazer pão, bolo, comida. Brincar de roda na sala. Brincar de criar um novo mundo dentro de um mundo enquadrado, do qual só temos relances pela varanda.

Mas e as mães que originaram esse texto? Elas estão ali, há mais de dois meses, grudadas em seus rebentos. Seus papéis em sobreposição, a farda diária é similar a roupa de ir ao pilates, o trabalho é no notebook, um olho nele e outro na cria que pinta (literalmente) a casa.

O cachorro late para o vizinho, o gato quer comida. A casa está sempre bagunçada, e quanta louça e quanta comida. Não há mais espaço para a manicure, cabeleireiro, ficar 10 minutos sem ter que se preocupar com todo o resto. Aquele almoço lento, com direito a uma breve caminhada. Aquele passeio rápido no shopping. Aquela conversa de elevador ou no refeitório com o colega de trabalho.

Por aqui, estamos bem!

Que sorte ter aceito que não era heroína e ter pedido ajuda. Mas escuto, diariamente, gritos e caos. E penso, não é fácil. Ser mãe, dona de casa e profissional em sobreposição é exaustivo. Vai passar e, em breve, lembraremos desse período que tem um lado positivo lindo, ver novas descobertas da sua pequena, diariamente, segundo a segundo.

*@thaisem é jornalista gaúcha que mora em Brasília há 5 anos. Agora, aos 35 anos, mãe de uma menina linda de dois anos e experimentando a vida adulta sem rede de apoio.

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