Sentimentos de uma quarentena

*Flávia Gomes

É, sim. É um privilégio eu e ele juntinhos nessa quarentena. Não tenho um minuto de sossego. Ele vem e se agarra em mim. Como um macaquinho pendurado. Como um canguru que não saiu da bolsa. Como um koala que come eucalipto com o filho pregado nas costas.

Tem horas que sonho com alguns minutos sozinha.

Mas aí lembro do imenso amor que é ter esse menino na vida… privilégio, mores. Porque tá cheio de mãe na favela que PRECISA sair para trabalhar, pegando ônibus lotado na pandemia, porque se não fizer o corre, os guri não come. E os guri tão sem aula, né, porque a escola da favela, que tem tantos problemas no dia a dia, agora fechou de vez.

E não tem aula EAD pra essa moçada! Nem teria como acompanhar. Até tem celular, mas internet já fica difícil. Aí galera vem romantizar bacuri que senta na frente do açougue para estudar usando a internet… não deveria ser assim!

Eu só posso dizer “Obrigada, Deus!”, por eu ser tão privilegiada. Mas não deveria ser assim…

Desculpa, filho, por às vezes ficar tão nervosa, tão estressada. Imagino que você está cansado também. Ficar sem sair, sem ver os amigos, não é legal, né? O papai e a mamãe às vezes cansam você, né? Mas a gente precisa aprender com tudo isso. E lembrar de agradecer TODO DIA porque a gente tem um ao outro, tem casa, comida, amor e internet boa. Porque lá fora, filho, o mundo é cão.


*Flávia Gomes @mae.do.leo, jornalista, empresária, mulher e mãe. Amo a vida, minha família, viajar e conhecer novas culturas. Vivo entre o equilíbrio dos pratos da família, da maternidade e do trabalho.

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