Dos cansaços passageiros

*Solange Maia

Estava cansada. Muito, muito cansada. Cansada até do que não acontecia. Mas sua vida pedia socorro e ela precisava seguir em frente. Não podia parar, embora desejasse muito poder mergulhar os pés em água florida, e torcer para que esse frescor subisse pelo corpo e pousasse em seu coração.

Ela precisava tanto sorrir.
Precisava de um milagre.
Mas achava que nem acreditava mais neles.
Milagres sobrenaturais e etéreos tinham ficado tão distantes…

E, de tão cansada, fechou os olhos.

De repente lá estava uma mãe solteira criando seu filho no abandono do pai. Estavam também as mães solitárias que vivem na “presença” dos companheiros. Elas sabem, mais do que ninguém, que a maternidade perfaz muito mais do que ter o nome num registro de nascimento. Sabem desse cuidado que pressupõe acolhimento e desdenha absolutamente de documentos. Elas também estavam cansadas. Muito cansadas.
Mas deu para ver que, enquanto esperavam por um milagre, à sua maneira o faziam.

Então era isso. Milagres aconteciam na ação da sua busca.
Pelo caminho. Pelo percurso.

Ainda de olhos fechados viu um pobre homem faminto. Ele tinha a solidão desenhada no olhar, mas, diante de um naco de pão, alimentava primeiro o seu cão, sem hesitar. Ele era outro milagre.

E o Nobel com quase 60 títulos, modesto diante do auditório lotado, falando baixo porque pessoas seguras sabem que não precisam dar autoridade aos seus ensinamentos. Ele compreende até mesmo quem o nega: todas as suas veredas são de paz. Seu despojamento era outro milagre.

Talvez fosse este o propósito do seu cansaço: que pudesse reconhecer os milagres.

Que pudesse voltar a acreditar.
Que descobrisse que cansaços são passageiros.
Só o amor não é.
O amor é o próprio milagre.


*@solangemaiaescritora é blogueira há 13 anos, escrevo há mais de 35. Embora minhas formações sejam outras, escrever é minha paixão. Faço porque verto, e escrever, para mim, é sempre transbordar. Paulistana que já morou numa minúscula cidadezinha rural, apaixonada por pessoas, por minha filha e pelo amor. Coautora de um projeto lindo que virou livro, chamado “Histórias que os Rostos Contam”.

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