Sou a crítica do crítico

Taciana Collet escreve o texto Sou a crítica do crítico
Foto: Depositphotos

*Taciana Collet

Se tem algo que me incomoda é ouvir alguém criticando alguém. Talvez mais do que ser o alvo da crítica. Nem sempre me incomodou assim. Já perdi as contas de quantas vezes entrei no papo porque falar mal é fácil. Uma crítica puxa a outra, que puxa mais uma e a conversa esquenta até esquentar a orelha do alvo da roda, como dizia minha vó.

Dia desses, ouvi dois colegas falando mal de um terceiro. Vontade de sair em defesa da vítima. E comecei mentalmente a criticar o crítico. Passei em frente ao espelho e me vi pensando. Olhei bem pra mim. Quem sou eu pra criticar? Talvez por isso me incomode tanto. Sou tão crítica quanto quem critica. Fiscal do pensamento alheio.

A crítica pode até não sair da minha boca, mas povoa meu pensar.

Muitas vezes se estampa no meu rosto. Venho experimentando o exercício de silenciar meu julgamento em conversas diárias, mesmo diante de opiniões bem diferentes da minha. Simplesmente ouvir, sem concordar ou discordar.

Constatei o quão barulhenta é minha escuta. Eu me calo, mas meu pensar continua tagarelando. Tenho frases feitas e verdades prontas pra quase tudo. Nem consigo escutar o que o outro tem a me dizer porque estou mais preocupada em me ouvir.

Foram várias tentativas de me silenciar e, em muitas, fiquei calada, mas continuei julgando. Até que, numa conversa com minha mãe, consegui ouvir uma crítica sem devolver com outra. Não concordei ou discordei. O dito não me machucava mais. Consegui retirar o espinho da palavra e uma nova palavra se revelou.

Foi como se tivesse conseguido atravessar uma correnteza sem me afogar e chegasse a um trecho do rio espelhado. No fim, conseguia ouvir apenas a preocupação de vó da minha mãe e não mais a crítica à minha maternidade.

Saber escutar o outro me abstraindo de mim é desafiador, mas pode me revelar o que está escondido atrás de lamentações e críticas. Quando consigo silenciar minha opinião, nem que seja por uma conversa, alcanço a palavra detrás da palavra. Me silencio pra poder escutar com a alma porque toda vez que eu julgo eu me afasto de mim e do outro.


*@tacianacollet é jornalista e uma das fundadoras do Vida de Adulto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *