Um breve conto do novo normal

Tamiris Pazin escreve sobre o novo normal
Ilustração: arquivo pessoal

*Tamiris Pazin

Estava anunciado que acabaria assim. Também, em 365 dias de distanciamento social, acabou se acostumando em não reconhecer mais sua própria voz. Sabia sim diferenciar solitude e solidão, mas como sempre gostou de viver recluso, foi gostando cada vez mais da ideia de não mais dialogar com quem quer que fosse.

Ao sair e pegar elevador com vizinhos, já não respondia mais acenos e cumprimentos. Ao entrar em estabelecimentos comerciais, só apontava o que queria e entregava o dinheiro contado de cada compra. Ao ser abordado por alguém, fingia que não ouvia nada e seguia seu rumo. Não sentia falta das interações sociais e foi perdendo todo pouco traquejo que um dia pensou ter.

Não sentia falta do escritório, das conversas furadas com os extrovertidos exibidos e nem das interrupções dos preguiçosos. Gostava muito de acordar sem pressa aos finais de semana. De moer e preparar um café forte e aromático. Gostava de admirar os tons de neon a cada entardecer.

Gostava de observar seu corpo e rosto se transformando com a experiência do novo normal.

Gostava de mandar mensagens curtas desejando que os poucos amigos estivessem firmes, atentos e fortes e gostava do desaparecimento dos narcisistas que um dia fizeram parte de sua vida. Não gostava de provar sua sanidade mental aos familiares que não o entendiam. Preferiu sumir da vista deles.

Evitaria a fadiga de explicar seu excesso de empatia por um mundo doente. Ficaria assim, esperando o dia de ser convocado a ser vacinado em um Brasil derretido. E depois disso, seguiria exatamente igual, no seu delicioso mundinho do novo normal.


*Meu nome é @tamipazin, do @atamiescreveu. Estou vivenciando o retorno ao lar e recobrando o meu amor pela palavra. Acredito no amor como ferramenta de transformação. Acredito que o sentir é particular. E acredito que é preciso coragem para sentir. Coloco tudo isso em meus textos, palavras e manuscritos por aí.

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