A roda girou em caixinhas

Taciana Collet participou de duas oficinas de escrita da vida
Taciana (canto superior direito) coordena oficina de escrita para a equipe do Hospital Universitário João de Barros Barreto, em Belém, PA (Foto: Arquivo pessoal)

*Taciana Collet

No início foi estranho, mas tivemos de aprender a conversar em caixinhas. Era assim ou não nos comunicávamos.

– Você está no mudo. Travou…

Da série das frases mais ditas desde que a pandemia começou. Na foto, eu estou dentro do retângulo do canto superior direito. Tive de me enquadrar dentro do novo formato. Uma caixinha ao lado de outra. Algumas fechadas. Mas eu sinto. Consigo sentir um coração batendo dentro de cada caixinha. Como? Eu simplesmente sinto a conexão em rede só pela energia que chega até mim. Tão longe e tão perto.

Da sala da minha casa, eu me vejo entrando na casa de cada uma dessas pessoas. Mesmo das que não abriram as portas. Câmeras fechadas, corações abertos. Assim eu vejo a tela em frente a mim. Essas caixas-casas, tanto as da foto como as do vídeo na sequência, ficam em Belém e eu tive a alegria de me conectar com cada uma delas para uma roda de conversa sobre escrita curativa.

O Vida de Adulto recebeu dois convites para organizar oficinas sobre essa escrita de memórias, a escrita da vida.

Uma com um grupo de servidores do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Pará e a outra com uma equipe do Hospital Universitário João de Barros Barreto, também em Belém. E eu, em Brasília. Um viva para a tecnologia que vem conseguindo nos unir em tempos de tantas separações.

Tentei aquecer esse ambiente digital, aparentemente frio, com a palavra viva. Procurei levar o entusiasmo pela escrita que mora em mim para tentar acender a chama de cada um que estava ali. A vontade não só de começar a escrever, mas a de se conhecer pela escrita. Viver e escrever a própria biografia de forma presente, com consciência.

Foram quatro horas de conversa nos dois encontros, com um tempo para que cada um entrasse em contato com um trecho da sua própria vida pela escrita e compartilhasse. O desafio era humanizar (nem que fosse naquele exato momento) os ambientes de trabalho. Se tiver conseguido uma sementinha em cada uma dessas caixas-corações terei cumprido minha missão.

Só tenho a agradecer, em nome do Vida de Adulto, pelos convites. É sempre melhor estar ao lado, mas, na impossibilidade, a tecnologia traz pra perto, é só saber usar a favor. A roda girou em caixinhas.


*@@tacianacollet é jornalista e uma das fundadoras do Vida de Adulto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *