Mesmo furado, não me jogue fora

Mesmo furado, não me jogue fora
Foto: Arquivo pessoal

*Taciana Collet

Não consegui chegar até o fim, parei antes do meio da trilha. Não valeu o sistema de amortecimento nem a tecnologia do tecido “respirável”. Confesso que o que faltou foi fôlego – e este não vem de fábrica. Minha dona me deixou quase um ano e meio dentro da gaveta.

Ela me levava para passeios leves, contemplativos, que nem posso chamar de caminhada, nada que muito me exigisse. Logo eu que fui feito para sair correndo. Não se enganem com esses furos. Furei não foi de uso, foi porque precisava respirar. Não sei direito o que está se passando do lado de fora, mas quando ela me colocava com o pé para fora, sentia sempre o ar e a pisada pesados demais.

E não adiantava dizer para ela que eu não fui feito para ficar em casa. Agora ela me põe em uma trilha pesada e eu me sinto completamente desconfortável e fora de forma. Largado sem largadas.

De atleta amador passei a estar a um passo do sedentarismo.

Não foi fácil dizer para os companheiros de passada ao meu lado que eu não conseguia subir e descer morro mais. Pedi um tempo, mas não vi um técnico que pudesse me orientar. Cheguei a me sentir um inútil sem força de vontade. A vergonha ameaçou aparecer.

E veio uma autocobrança tipo lavagem com escovão depois de um dia de lama. Por que aceitei que ela ficasse tanto tempo longe das pistas? Por que deixei ela chegar a esse ponto de me deixar guardado tanto tempo? Até que cansei de me punir.

Fui para debaixo do sol na beirada do rio afrouxar o cadarço e esfriar o solado. O que passou, passou, mesmo que ainda não tenha passado completamente. Na gaveta foi onde ela se sentiu segura de me deixar nos últimos meses. Foi onde eu fiquei e ponto.

Só espero agora que, mesmo furado, ela não me jogue fora. Quero mais uma chance de recomeçar. Sei que estou precisando ser trocado, mas sinto que ainda consigo. Quero estar com ela quando meu fôlego voltar. Aí sim, minha dona vai poder me pendurar porque saberei que ela vai ficar bem.


@tacianacollet é jornalista e uma das fundadoras do Vida de Adulto.

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