Apesar de tudo

Amanda Lima escreve sobre como sempre foi a filha perfeita, apesar de tudo
Foto: Pixabay

*Amanda Lima

Quanto tempo a gente passa vivendo aquilo que projetaram para nossas vidas? Qual o peso que as expectativas dos outros exercem sobre nós?

Fui criada pra ser a filha “perfeita”. Educada, gentil, obediente e que fala baixo.
A mim não foi concedida a permissão para errar, nunca, em hipótese alguma.

Não grite, não corra, se comporte. Ouvi e internalizei cada uma dessas palavras porque em mim existia a missão de ser exatamente aquilo que minha família esperava de mim.

Sinto que minha personalidade foi sendo podada aos poucos. Deixei de lado uma possível aventureira, ou uma garota que gosta de falar alto, de gesticular e se expressar. Não sei quanto de mim é realmente meu.

Na escola sempre fui impecável, exemplo e orgulho. Comecei a trabalhar com 16, entrei na faculdade pública com 17. Meus primeiros salários quando comecei a lecionar, usei pra melhorar a qualidade de vida da minha família. Ainda uso.

Em todos esses anos, nunca pensei em mim. Vivi a vida que me foi projetada. Sempre coloquei minha família e suas expectativas a frente de qualquer coisa em todos os âmbitos da vida. Fiz tudo que fui ensinada a fazer e fiz com perfeição.

Me encolhi e tentei caber em uma caixinha que fizeram pra mim. Mas, não deu. Não deu porque sou grande demais pra ficar ali, onde não cabe tudo que sou.

Em 26 anos, eu fiz tudo! Eu fui aquela filha “perfeita”.

Mas percebi que estava passando tempo demais naquilo que projetaram pra mim, quando não tive o “privilégio” de ter minha sexualidade reconhecida. As palavras voltaram a ser repetidas, não fale, não se exponha, ninguém pode saber. Me senti invalidada apesar de todos os meus bons modos.

O que mais dói é o peso que aquelas expectativas exerceram no meu peito, a ponto de, durante muito tempo, fazer eu me sentir culpada por não ser aquilo que esperavam de mim… Apesar de tudo.


*@ams.lima, do @reverberei, nascida em agosto de 1994, professora, formada em Geografia e Pedagogia, apaixonada por todas as formas de arte desde a infância.

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