Habitar a mim mesma

Blog Vida de Adulto
Foto: Arquivo pessoal

*Raquel Fagundes

Janeiro é um mês aguardado por mim. Ele tem um quê meditativo, algo reflexivo após passarmos por ‘tanto excesso’. Coloquei tanto excesso entre aspas em pleonasmo para enfatizar o quanto os dois últimos meses são pesados no sentido de movimentação.

Janeiro é o meu verdadeiro ‘detox’ após a correria para terminar o semestre de trabalho pesado, excessivas luzes, confraternizações, gastos, comidas e bebidas, flashes, mais gastos, “noises”, mensagens mil (impessoais) de WhatsApp, presentes a tantos queridos; musiquinhas natalinas, início de férias das crianças, além do trânsito mais caótico do que o normal.

Eu até começo a gostar dessa movimentação toda, querendo todas as festas e correrias; me animo e tal, mas meu relógio de libriana introvertida sente um cansaço. Uma preguiça… E oscilo entre curtir e pedir calmaria.

E fico toda felizinha ao poder me silenciar nesses dias em que o ritmo diminui, em que eu consigo ficar mais tranquila com a minha pequena, preparar algo pra nós três. Deitar no colo do marido, curtir nosso jardim, folhear uma revista, escrever na agenda nova, organizar minha cozinha.

Habitar minha casa.
Habitar.
Habitar a mim mesma.
Nada de estradas, nada de aeroportos.
Só o silêncio por alguns dias.

Enquanto as pessoas geralmente fazem uma ‘limpeza’ pra fechar o ano, eu faço pra abrir!

Arrumo gavetas, separo o que não usaremos mais, troco os lugares de quadrinhos, coisa aqui e ali. Consigo ter e lançar um outro olhar sob o que eu ainda não havia percebido. Perceber… Sentir. Coisas que o silêncio e um ritmo, quem sabe com mais consciência nos proporcionam.

E arrumando as gavetas de fora, arrumo as de dentro.
Como diria Mia Couto, “O importante não é a casa onde moramos.
Mas onde, em nós, a casa mora.”

E nesse acesso aos objetos guardados, me pego emocionada com fotografias, bilhetinhos,cartas, músicas.
É nesse silenciar que consigo refletir sobre momentos difíceis, limitações, algumas tristezas.

E, assim, vou seguindo cantarolando, fazendo minhas orações, meus mantrinhas, palavrinhas de cura com esperança, força, gratidão, amor.
Habitar minha casa.
Habitar a mim mesma.
Habitar minha alma.
Casa Almada.

*Raquel Fagundes é mãe, professora, médica veterinária. Ama os afetos, as minúcias, os olhares.

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