A luta do luto

Fabricia Hamu
Foto: Selma Cândida

De repente, o endereço que era referência de aconchego agora só abriga o vazio. Os cômodos com risadas, conversas, música e o barulho da TV estão tomados pelo silêncio. O número que chamava todos os dias de manhã não aparece mais na tela do celular. Os domingos que já tinham compromisso certo ficam soltos, sem planos nem rotinas.

No filme Laços de Ternura, Shirley MacLaine interpreta a mãe de Debra Winger, que descobre um câncer agressivo e luta bravamente contra ele. No momento em que recebe a notícia da morte da filha, ela diz: “Meu Deus, como sou estúpida. Pensei que quando esse dia chegasse, eu fosse sentir alívio. Não há nada mais desesperador.”

Essa fala é a definição perfeita da luta conflituosa que é o luto. Como a personagem do filme, minha mãe sofreu todas as dores de um câncer agressivo. Agora que ela se foi, na maioria das vezes, estou consciente de que vê-la partir foi a também a única forma de vê-la parar de sofrer. Meu coração é que ainda não se acostumou com isso e parece um turbilhão.

Ao longo do dia, sou tomada por uma dezena de sentimentos diferentes. Sinto alívio, medo, tristeza, resignação, saudade, aceitação, falta, completude… Um mistura complexa, bem decifrada por Mia Couto, que comparou o luto à “cicatriz tão longe de uma ferida tão dentro: a ausente permanência de quem morreu.” E sentenciou: “Morto amado nunca mais para de morrer”.

É isso, “morto amado”. Ao final, o amor é o sentimento que resume tudo. É ele que me faz colocar a última blusa que minha mãe usou em uma sacola plástica, para que o cheiro dela não se perca, e também me ajuda a compreender que um ciclo se fechou e outro começa. O mesmo amor que me leva a ouvir áudios para relembrar sua voz, é o que busca no silêncio as lições deixadas por ela.

É por amor que ressignificamos o luto e aprendemos que o afeto pode tanto estar ao lado, quanto dentro. É por amor que sofremos pela ausência, e depois descobrimos que não há vazio, mas uma essência poderosa. É por amor que desafiamos a morte e desenvolvemos o dom mágico de fazer com que quem se foi continue aqui. Eterno. Para sempre.

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