Alienada com orgulho

Fabricia Hamu no Blog Vida de Adulto
Crédito: Fábio Lima

*Fabrícia Hamu

Quando me formei em Jornalismo, sabia que estar bem-informada era uma necessidade. Depois de trabalhar anos em redações de jornais e me tornar sócia de uma empresa especializada em gestão de crise de imagem, a suposição transformou-se em certeza.

Saber em tempo real o que se passava no mundo – sobretudo no universo particular dos meus clientes –, ler diariamente livros sobre novidades na minha área e investir constantemente em cultura não era mais questão de escolha, mas de sobrevivência profissional.

Acontece que no meio do caminho havia a pandemia, e eu, acostumada a chegar em casa e ficar zapeando entre os dois canais de TV de programação jornalística 24 horas e os sites de notícias, fui obrigada a rever meus hábitos – também por questão de sobrevivência, só que, dessa vez, da minha sanidade mental.

A noite em que vi o telejornal informar que 61 crianças internadas em UTIs de Manaus corriam risco de morte, por falta de oxigênio, foi decisiva para minha mudança.

Não bastasse a sobrecarga de dor no dia a dia, vendo pessoas queridas adoecerem ou morrerem por Covid-19, o flagelo mais distante também doía em mim.

Optei, então, por me proteger do mundo real, depois das 19 horas. A partir deste horário, embora o celular permaneça ligado para atender qualquer emergência com os clientes, meu cérebro faz o caminho contrário do slogan da emissora de notícias que diz que “nunca desliga”, e entra no modo automático.

Vou brincar com minha cachorrinha, preparar o jantar, assistir séries e filmes bobos que me façam rir, aprender receitas novas no Tik Tok, seguir perfis nonsense como “Objetos com cara” e “Apaixonados por lotes baldios” no Twitter e acompanhar o que acontece no Big Brother Brasil.

Ao saber disso, um conhecido comentou que eu estava me tornando “alienada”. Se preservar minha sanidade mental e me proteger um pouco do intenso sofrimento que nos assola for me alienar, então sou, sim, alienada com orgulho. Não sei o cérebro de vocês, mas o meu não suporta mais tanta dor em tempo real.


*@fabriciahamu é uma das fundadoras do Vida de Adulto. Escreve às segundas-feiras, duas vezes por mês.

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