A cura pela palavra

*Fabrícia Hamu

Há dez anos, acordei de madrugada com o barulho de um carro se chocando contra um poste, em frente ao apartamento onde eu morava. Na manhã seguinte, soube que era uma jovem de 26 anos, que dirigia em alta velocidade, desestabilizada depois de uma briga com o namorado. Ela morrera no acidente.

O caso me chocou. Na época, não se usava ainda o termo “relacionamento abusivo”. No entanto, era isso o que aquela moça vivia e que eu, por identificação, percebi que vivera um tempo antes. Impactada pela história, escrevi no Jornal A Redação o texto “Dieta das migalhas de amor”.

Meses depois, a mãe da jovem me procurou. Pensei que fosse levar uma bronca, por utilizar a história da filha como exemplo de relação abusiva. Porém, ela me surpreendera: “Preciso que você escreva mais sobre isso, para alertar outras mulheres. A morte da minha filha não pode ter sido em vão”.

Tocada pelo pedido da mãe, escrevi aquele que, até hoje, foi meu texto mais lido e comentado: “Para não morrer de amor”. A moça em questão se chamava Renata. Mal sabia eu que, ao contar a história dela e a minha, estava exercendo a escrita curativa. Estava lidando com minhas feridas e ajudando outras pessoas a fazerem o mesmo.

Faço este relato porque muita gente quer saber como a escrita curativa entrou na minha vida. Foi em 2011, sem que ainda tivesse este nome. Com o Vida de Adulto, o ato de escrever de forma terapêutica e afetuosa ganhou não apenas uma denominação, mas também quase 6 mil seguidores e muitas histórias lindas publicadas.

À convite da professora Nathália Coelho, falei sobre o projeto do Vida de Adulto para os alunos do Departamento de Jornalismo da FAC/Unb, na disciplina de “Introdução à Comunicação”. Plena de gratidão, o que posso dizer é que nada ensinei, e muito aprendi, pelas experiências marcantes compartilhadas durante aquela uma hora e meia.

É uma honra ter acesso à história de alguém. A cada vez que uma pessoa compartilha um pedacinho da sua trajetória por aqui, muitos pedaços do meu ser são reconectados. E você? Também tem se curado com o Vida de Adulto? Me conta. Vou adorar saber.


*@fabriciahamu é uma das fundadoras do Vida de Adulto. Escreve às segundas-feiras, duas vezes por mês.

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