“Depois que se é feliz, o que vem depois?”

Foto: Arquivo pessoal

Saí de férias decidida a tirar poucas fotos. O máximo de tempo em modo avião. Desconectada, com celular guardado. Cumpri parcialmente a promessa. O que vi ao meu redor me fez quebrar o pacto de registrar só com a memória. Era tanto azul e verde se desenhando a minha frente que me rendi.

Por que essa necessidade de registrar? É possível levar na mala de volta momentos como esse da foto? O que eu vivi nesse instante capturado define pra mim o que é momento flow, instante zen, estado de graça… a tal felicidade. Durante a uma hora que fiquei neste banco de areia cercada de mar, consegui não pensar nem no passado nem no futuro. Nem no antes nem no depois.

Absolutamente presente, feliz, inteira. Perdida no tempo sem hora. Sem pensar no que faria depois, sem pensar no que deixei pra trás. Presente. Com os dois pés e o coração na areia fofa e molhada. Sem pensar no que comeria no jantar. Sem pensar no trabalho que tive antes do descanso.

São raros esses momentos de plena consciência do vivido. Registrei para que eu pudesse olhar pra foto e dizer: estava feliz e sabia. Quantos momentos já passei e só descobri depois que aquilo era felicidade. Porque a felicidade se infiltra clandestinamente no ordinário, no banal e passa despercebida.

Na maioria das vezes, ela não chega explícita assim e só percebo depois que vai embora. Com a consciência da felicidade registrada, me lembrei de Clarice Lispector, leitura que me acompanhou nessas férias. “Ser feliz é para conseguir o quê?” Emudeço. “Depois que se é feliz, o que vem depois?” A vida segue o curso e não ganha o ponto final dos contos de fada. Insustentável ser feliz pra sempre.

Vivi meu momento tão inteira e presente no agora da foto que esqueci de passar o filtro solar. Fui dormir nesta noite com as costas em chamas. Antes de fechar os olhos, mais uma olhadela pra imagem. Feliz, mas ardia. Ri sozinha. Vai nublar, chover, vai esfriar e isso tudo é vida. Não é sobre felicidade, é sobre estar presente e observar o passeio, mesmo quando a maré subir. A vida é bela, assim como arde e queima. E passa.

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