Não desespero o tempo das coisas

Taciana Collet está de costas, de pé, em cima de uma pedra com os braços abertos
Foto: Arquivo pessoal

Por Taciana Collet

Há tempos não tinha uma insônia. Aquele rolar de um lado pra outro da cama. Canso de não dormir e apelo pra um chá de camomila saindo fumaça. Volto a deitar. Abraço o travesseiro com a lembrança de abraços não dados. Nenhuma posição me conforta. Penso na minha mãe longe, na minha irmã longe, em meio mundo que eu amo longe. E quando foi que eu estive perto?

Essas imagens não me ajudam, mas não quero fugir de pensar. Respiro profundamente e as palavras começam a saltar na minha mente. Levanto da cama, a escrita me chama. Vinha evitando esse momento de ver o de dentro exposto do lado de fora.

Porque parece que tudo ficou sem controle. E quando foi mesmo que eu tive o controle? Parece que tudo ficou tão pequeno. Ou será que tudo já era pequeno e de tão pequeno eu não percebia? Me sinto minúscula. É essa a palavra. Minúscula – e me achava maiúscula demais. Fiquei do meu real tamanho.

Abro minha agenda de coisas a fazer organizada na semana passada. Questões anteriores que pareciam gigantes se apequenaram, assim como eu. Urgência adiada. Da lista de prioridades, não sobrou nenhuma. O que sobrou? Descubro o supérfluo no que achava importante. Falta sinto do que considerava banal. O corriqueiro deixa de correr quieto.

Sou um grão. Um minúsculo grão. Um grão à procura da coragem. Coragem que eu vejo a todo momento escapulir da minha mão. Coragem que quero fortalecer a cada amanhecer pelo poder da minha vontade. Coragem pra me fazer lembrar da serenidade que carrego em mim.

Na madrugada insone que já vai virar dia, escrevo e resgato leituras. Releio o verso de Rudolf Steiner recitado nos últimos dias todos os dias e que inspirou o parágrafo acima. “Em mim mesmo eu trago as forças que me fortalecem. Quero preencher-me com o calor dessas forças.”

Não desespero o tempo das coisas. O sono veio no seu tempo e vou dormir com o primeiro acordar do passarinho.

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