Somos três vestidinhos pretos

Natascha Duarte escreve o texto Somos três vestidinhos pretos
Foto: Arquivo pessoal

*Natascha Duarte

Naquela tarde, conversavam os vestidinhos pretos dentro da gaveta. O dia ia tenso e eles estavam nervosos.

— Eu não era assim. Houve um tempo em que eu era novo em folha e minhas rendas em tecido vintage sensibilizariam qualquer mulher de fino trato.
— O que tem isso de rendas? Você não é melhor que ninguém, só é importado. Você era novo e ficou velho e abobalhado. Eu também sou estrangeiro, remember?

Havia tempo que não se reuniam todos dentro do armário, e, assim, puderam opinar livremente sobre o que acontecia com a dona que, de repente, passou a usá-los sem dó, tirando-os do corpo somente para lavar vez ou outra.

— Vir da Turquia como presente especial me fez diferente, mas essa que se tornou minha dona está desleixada comigo. Nem me passa a ferro mais.

Até aquele momento, era um na máquina de lavar, outro no varal secando e um solitário no corpo da mulher. Por isso, o encontro era histriônico.

— Roupa é pra isso mesmo. Sinto-me bem mesmo depois de tanto uso; e continuo sendo o que era, um lindo gift de malha fresca, estilo boho americano sem contendas a resolver.
— Que tristeza ver vocês se gabando! A feirinha popular não me fez menos importante. Não temo me ver rasgar ou furar. Somos vestidos amados e por isso ela nos usa bastante. Ou porque agora não sai de casa.
— Nossa dona quer parecer feminina mesmo em casa, por isso se rendeu aos belos vestidos que tem. Entendo a alma das mulheres mesmo sendo homem. Quem não tem na alma um pouco de mulher, não é vestido de verdade.
— A questão que preocupa é: se ela usa e abusa apenas de nós e tem outros vestidos, estaria delirando? Envelhecemos a olhos vistos. Não há roupa que resista a máquina de lavar em ciclos sem fim.
— Para mim que nasci vestido pobre, mas trago sabedoria popular, a verdade é que não é nadinha. Só vontade dela de ficar sozinha consigo mesma.
— Ouvi dizer que é algo que veio de longe, mas não consigo entender o noticiário porque falo turco.
— Como você não entende português se fala conosco nessa língua? Vestido ignóbil.
— Deve ser o frio.
— Ou o calor.
— Acho que é a idade.
— Ela está mais cansada e diz, quando me veste, que quer abraçar todo mundo.
— Mas não é Natal ainda.
— Verdade.
—Vestido morre?
—Acho que não. Vai ficando pra pano de chão.
— Quando eu morrer, vou sentir saudades de mim.


*Meu nome é @natascha.duarte, 49, sou formada em Fonoaudiologia pela PUC Goiás e em Relações Públicas pela UFG. Casada com Silvio Quirino, fotógrafo publicitário. Temos uma agência de produção de áudio visual e de estratégias políticas e de varejo. E dois filhos, Miguel de 13 anos e Benício de 8. Sou mãe em tempo integral e minha paixão é escrever. Tenho o blog Natascha Duarte – Livre pensar onde compartilho meu livre pensar e alguma inspiração literária. Mudamos para uma cidadezinha nos arredores de Goiânia, Goiás, há um ano.

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