Minha filha, minha grande mestre

Taciana Collet e a filha, Isabele
Foto: Arquivo pessoal

*Taciana Collet

A primeira vez que falei isso, ela riu muito, achou graça de ser professora minha. Gravou o que eu disse e volta e vira me lembra disso. Fala sério, mãe! Eu falava sério, filha. Você me ensina muito.

Desde que comecei a querer me conhecer, fui percebendo que, na minha própria casa, havia alguém que me desafiava. Uma adolescente que hoje completa 17 anos.

Quando Isabele nasceu, prometi pra mim mesma que seria uma mãe diferente da minha. De tanto querer fazer diferente, repeti igual, no extremo oposto. Minha mãe era a mulher do não. Não pode. Eu, a mulher do sim.

— Filha, você precisa experimentar isso, gostar disso, fazer isso porque é muito bom.

— Mãe, mas eu não gosto.

Demorei pra perceber que meu autoritarismo só estava do outro lado da gangorra. Foi a primeira lição recebida. Respeito. Aprendi contigo que o respeito só acontece quando está numa pista de mão dupla. Você igualmente me ensinou que, somente aprendendo a ser filha, aprendo a ser mãe. Sim, foi preciso reconstruir a relação com minha mãe, entender todo não que ela me deu e respeitá-la pra começar a mudar minha relação com você.

Quando surge um embate entre nós duas, mantenho a calma e tento seguir com o diálogo. Mas você, filha, descobre meu disfarce na hora e não vê calma na minh´alma. Consegue enxergar a raiva e a vontade de gritar que grita dentro de mim. Põe um espelho na minha frente, me mostra a falsa tranquilidade, o meu desejo de simplesmente impor o que penso. Você me expõe pra mim mesma.

Venho me esforçando pra ser verdadeira contigo. Nem sempre consigo, é verdade. Mas quando, depois de várias tentativas, atingimos o genuíno diálogo, isso faz valer a pena todas as “aulas”, muitas vezes desgastantes. Porque assim atravesso seu comportamento pra encontrar sua essência e, desta forma, reviso minhas ações.

Esse texto é meu presente hoje pra você.

Gostaria que guardasse bem embrulhado e abrisse novamente quando for mãe, se esse for o seu caminho. Ou quando eu já tiver partido porque nunca terei certeza se estou agindo certo contigo, mas nessas linhas deixo certo meu amor por você, minha grande mestre.


*@tacianacollet é uma das fundadoras do Vida de Adulto, escreve às sextas-feiras, duas vezes por mês.

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