Quando uma outra vida morou em mim

Taciana Collet no blog Vida de Adulto
Foto: Arquivo pessoal

*Taciana Collet

A dor dormia há dezesseis anos. Adormecida porque na época não tive tempo nem coragem pra senti-la. Uma bebê recém-nascida estava no meu colo. Minha filha precisava da mãe. E eu precisava deixar a dor dormente para que a mãe que em algum canto existia em mim pudesse nascer.

A vida passou, sem passar a dor que pensava ser passado. Até que um dia desses procurei um osteopata para buscar a origem de dores no corpo sem explicação. Num questionário de vida, ele me perguntou sobre cirurgias, conto da cesárea e segue a consulta. Ao fim, ele me propõe que eu faça uma leve massagem na cicatriz que ficou no lugar dos doze pontos do parto.

Nem me lembro que a cicatriz existe.

E comecei a tocar o traçado na pele. Ao terceiro toque, o choro saiu espontâneo, alto e dolorido demais. Nada físico doía, mas coloquei o dedo numa ferida que nem eu sabia que ainda estava aberta. Deitei na posição de feto na barriga da mãe e ali fiquei, chorando. Nem sei quanto tempo, mas era choro de lágrima guardada há tempo demais.

Enquanto chorava, só lembrava do medo. Do medo monstro que senti minha gravidez quase inteira, desde o terceiro mês quando tive um sangramento durante uma viagem pra praia. Os seis meses seguintes da gestação foram de medo puro. De medo de perder a vida que morava dentro de mim.

Não tenho álbum de grávida. Essa é uma das poucas fotos que tive coragem de tirar e é a primeira que mostro pra alguém.

Porque eu podia perder minha filha. Não fiz chá de fraldas. Porque eu podia perder minha filha.

Repetia quase a mesma roupa. Não podia ser vaidosa. Porque podia perder minha filha. Não escolhi o nome até o momento do parto. Porque podia perder minha filha. Assim foi. Um medo só, que eu não conseguia dividir com ninguém. Porque eu podia perder minha filha. E me perder junto.

Na sala de parto, assim que ouvi o choro da Isabele, chorei o medo represado. Ali, com o corte ainda aberto, declamei alto o meu amor por ela. O pai, médicos e enfermeiros se calaram pra ouvir e choraram junto meu choro de alívio.

Se o corte já foi costurado, por que contar isso agora? Já passou. Não passou. Dormia. Mas uma hora uma dor aparece do nada pra lembrar do que precisa terminar de ser cicatrizado.


*@tacianacollet é uma das fundadoras do Vida de Adulto, escreve às sextas-feiras, duas vezes por mês.

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