Morri, mas passo bem

*Fabrícia Hamu

Numa madrugada de julho, no ano passado, acordei com o coração acelerado. Havia alguma postagem importante que eu não tinha lido? Deixei de responder alguém? Era o sinal inequívoco de que as redes sociais estavam me fazendo mal. Tomei uma atitude drástica e desativei todos os perfis.

Não foi a primeira vez que fiz isso. Eu já havia ficado um ano afastada das redes, antes.

Mas foi a primeira vez que tomei essa decisão no meio de uma pandemia, depois de ter perdido minha mãe e fazer uma cirurgia. E confesso: foi estranho voltar. Mudei tanto, que já não me reconheço mais.

Há um ano, eu stalkeava a atual do meu ex, a amiga do desafeto, a blogueira que vivia nas Maldivas e a influencer que fazia dieta restritiva. Era como se olhasse para minha vida como uma paisagem em borrão, daquelas que a gente observa quando está no carro em alta velocidade, e para essas pessoas com uma lupa cuidadosa. Eu sabia mais delas que de mim.

Era preciso fazer o caminho de volta. E como foi difícil. No começo, assim como quem decide parar de fumar, eu não sabia o que fazer com as mãos, já que o celular servia para acompanhar a vida dos outros nas redes sociais. Depois, me tornei um E.T: “Você não tem Instagram, Facebook, nada? Que estranho.”

Devagar, fui me reconectando comigo e refletindo: quem eu permitiria que me influenciasse? Porque a todos que acompanhamos por aqui damos o poder de influenciar nossos pensamentos, atitudes, gostos e, dependendo do momento, até valores. E eu buscava conexão com a generosidade, a empatia, a fé e a alegria.

Fiz uma bela limpeza na lista de perfis que aparecem na minha timeline e também mudei o conteúdo das minhas postagens.

Indiretas, rancores e ironias não têm mais espaço. A ideia é que quem passe pelas minhas redes sociais saia melhor que entrou.

Nenhuma mudança vem sem ônus. Sei que uns deixarão de me seguir e outros vão estranhar eu ter deixado de segui-los. Faz parte. Posso dizer que “morri”, mas agora passo bem. A gente paga um preço por tudo, até pela serenidade. Troco likes por paz de espírito.


*@fabriciahamu é uma das fundadoras do Vida de Adulto. Escreve às segundas-feiras, duas vezes por mês.

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