No escuro os vagalumes brilham mais

*Alessandra Roscoe

Nunca celebrei a vida com tanta intensidade como celebro agora. Apesar de ainda não ter meus amores todos ao alcance dos abraços, por conta da pandemia, senti cada um junto comigo e não só hoje, mas também nos dias mais difíceis deste ciclo que fecho agora. Passei a entender de um jeito muito poderoso todas as formas do amor se manifestar.

Foi em outubro do ano passado, num exame de rotina que surgiram as suspeitas. Em novembro, a confirmação: um câncer de mama.

No mesmo mês, veio também a confirmação da necessidade da cirurgia cardíaca da minha filha Luiza. Operei em dezembro. Ainda preciso passar por uma segunda cirurgia, que seria em março, mas Luiza iria operar em abril e resolvi esperar para poder estar na cirurgia dela. Aí, veio a pandemia.

O médico que iria operá-la viria dos EUA e nossa espera se arrastou até o fim de setembro. Luiza operou, enfrentou dores e medos, nós também e de lá para cá, cada pequeno lampejo de vida dentro e fora de nós, ganhou outra dimensão.

A torcida dos familiares e amigos, até de desconhecidos, tornou-se palpável nos dias de desesperança. Entender a força dessa trama tecida com os fios do invisível, trouxe de novo a fé no improvável, quando tudo desacredita e a gente ainda insiste em sonhar outro futuro, em ser antídoto contra esse mundo que não queremos e contra todos os venenos.

Hoje ver vida brotando no jardim em casa e ser presenteada com a presença cuidadosa do marido, dos filhos ao redor, ganhar flores do jasmineiro, o beijo da Luiza e o abraço da sogra-mãe foi especial demais.

Encontrei no simples fato de tocar com o pé descalço a grama do jardim, minha mais profunda conexão com a natureza.

Mas andava muda e foi ao me dar conta, no dia do meu aniversário, do tanto que tinha para celebrar que comecei a colocar palavras também nas minhas dores. E o pedido da amiga, também escritora, Elisa Mattos, para que escrevesse sobre os últimos tempos acabou destampando o resto de silêncio que ainda guardava e, numa espécie de escrita curativa, ajudou-me a cicatrizar feridas e entender que é exatamente diante dos maiores abismos que percebemos o tamanho das nossas asas. É também na escuridão que somos capazes de enxergar melhor o brilho dos vagalumes!


*@aleroscoe é jornalista, escritora e coordena o Uniduniler (www.uniduniler.com.br) projeto de mediação de leitura, que desde 2013 percorre o Brasil levando livros e afetos, onde nem sempre eles chegam. Mineira de Uberaba, Alessandra vive em Brasília com o marido e os três filhos, numa casa com muitas árvores, flores e cachorros. Autora de mais de 40 livros para a infância, tem obras traduzidas em outros países, em bibliotecas internacionais, e adaptada para o cinema. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2013.

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