Hoje estou com saudades de ontem

Miryan Lucy Rezende escreve sobre Saudades no blog Vida de Adulto
Foto: Depositphotos

*Miryan Lucy Rezende

Hoje estou com saudades de ontem. A cada dia tenho mais saudades de ontem. De um tempo que estava logo ali, a um aperto de mão, a distância de dois braços, no poder de dois beijinhos, de selinhos. Era só estender os braços para colher as flores. Bastava um simples gesto, e o carinho estava feito, estava dado. Carinho sentido, tocado com os dedos. Literalmente. Estamos sentindo falta de tato. Nos dois sentidos. Em todos os sentidos. E estamos sentidos. Eu estou sentida.

Estou com saudade de ontem porque o hoje está duro demais. Sem gargalhadas, hoje a gente ri discreto pra ver se não incomoda a dor. A gente sabe o peso que tem carregado e tenta aliviar rezando, chorando escondido, tentando uma réstia de alegria pra honrar o que fomos, os que foram, e o que a gente é, mesmo debaixo dos escombros. Levantamos a lanterna da fé, acendemos velas em preces, nos viramos como dá. Mas o peito aperta num nó sem dó, sem permissão.

Estou com saudades de ontem. Desse ontem que ficou logo ali, ao dobrar a esquina. Na última vez que cruzei o portão da minha escola, que abracei minhas crianças, que ganhei uma carona, que dei uma carona, que dei tchau pra uma amiga, que abracei colegas, que fiz farra com parentes, que combinei com as amigas uma vinhoterapia, que reuni a família, que declarei um poema, que declamei um amor.

Estou com saudades de ontem. De quando a gente ia e vinha sem culpa, permissão, satisfação. Que a gente deitava, levantava, reclamava, cansava, achava graça, sonhava, se decepcionava, abria a janela, e se não servia ver o mundo que ela dava, a porta era mesmo a serventia da casa e a gente ganhava a rua.

O que perdemos ontem não foi apenas a liberdade de viver sem culpa. Perdemos a espontaneidade. Perdemos a pureza. Alguma coisa muito preciosa se quebrou.

Hoje estou com saudade de ontem. Estou com muita saudade de respirar sem cuidado e sem cheiro de álcool em gel.

De andar na chuva. De abraçar amigos. De sentar na calçada. De pôr os pés na água. De dançar. De comer pipoca no cinema. De chorar mais de emoção do que de tristeza. De rir mais de felicidade do que de nervoso. De acreditar com leveza, sem a desconfiança de que daqui a pouco outro susto, outra despedida, mais uma notícia venham roubar o pouco que nos resta. De viver sem a morte a morder nosso calcanhar.

Vamos sobreviver a isso? Sim. Certamente. Com certeza. Não tenho dúvidas. Todo esse desabafo não significa desesperança. Fé cresce na adversidade. Força a gente descobre na dificuldade. Nem por um decreto absurdo dessa realidade surreal podemos entregar os pontos. Nem que seja no último segundo da prorrogação haveremos de trazer de volta o gol da vida, num grito de alívio que só os teimosos conhecem.

Mas ainda precisamos passar nesse teste que nós mesmos como humanidade desregulada e desregrada nos impusemos. Não haveremos de fugir às nossas responsabilidades coletivas. Mesmo tendo gente que não colabora. Justiça é mesmo uma coisa que tarda mas não falha. Assim como Deus, que afinal é o dono dela.

Enquanto a saudade de ontem se agiganta e vira desabafo, a reza fica mais forte, a vontade mais aguerrida, o amor vai crescendo e se fortalecendo, e vamos ficando diferentes, mais competentes na arte misteriosa de viver. Deus não fará a parte que compete a cada um de nós. Isso é certo. Mas de nós haverá de ter misericórdia. Nos inspirar, nos pegar pela mão, nos carregar no colo, sussurrar em nossos ouvidos, soprar vida em nossos corações.

Cada um faça o melhor em seu caminho. De vez em quando, é permitido chorar. Sentir saudade sempre foi um bom jeito de abrir caminho pra voltar. E voltar melhor. Então, inspirada nessa saudade de ontem, vou dar meu melhor para o daqui a pouco que chegará qualquer dia desses. Assim que a gente perceber que a cura virá do amor, atravessaremos a ponte.

Para isso, contem comigo na travessia.


*@mlrezende51 é mineira de Ituiutaba. Dividiu sua infância entre Uberaba e Brasília. Em Uberlândia chegou aos 19 anos para cursar Letras. Lá ainda reside. Quando perguntada sobre sua trajetória como escritora, limita-se a dizer: “A palavra é que me escreve; eu estou aprendendo a ler.”

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