Bicho do mato

Nane de Sousa escreve o texto Bicho do mato no blog Vida de Adulto
Foto: Arquivo pessoal

*Nane de Sousa

Por cerca de 14 meses não arredei os pés da cidade interiorana que me acolheu 24 anos atrás. Era de casa para o escritório. Do escritório pra casa. Máscara, álcool em gel, passos largos. Distanciamento. Medo. Depois medo de ter medo demais. Infectei. Vi meus afetos passarem os maus bocados dos sintomas da Covid-19. Rezei por minha tia-mãe e nutri expectativas de que ela tivesse forças suficientes para ser extubada após 30 dias de internação. E deu certo!

Ouvi centenas de histórias tristes. Conheci gerações que foram dizimadas pela mesma doença. Li e vi exaustivamente os noticiários. Depois não quis ver. E depois entendi que era preciso ver, sim, para alimentar a ira e resistir.

Passei por inúmeras fases nesta pandemia. Desejei não sair mais de casa. Ficar ali “quentando” sol, fazendo pão, escrevendo, vendo a vida passar…

Depois vesti as armaduras e fui buscar o pão nosso de cada dia. Chorei (e sigo chorando) por cada vida perdida. Acumulei energia para participar de duas antologias em 2020. Comprei uma casa e deixei um amor para trás em busca da minha essência individual. Tudo isso no meio da pandemia, mas ainda ali no interior do meu interior. Falando mais comigo e com a Nina – minha amiga canina preferida.

Mas um dia bate um vento forte e tira a gente do lugar. Leva a gente pra longe do lugar quentinho. Aeroportos, prédios e monumentos, hoje, me atravessam de um modo diferente. Um misto de medo e prazer. Pisar num “cidadão” (entenda cidade grande) e me movimentar em direção à multidão é renovador, embora assuste.

De certa forma, virei bicho do mato. Mas de algum jeito ainda estou viva para constatar isso.

E essa é uma forma de enxergar as coisas. A pandemia necessariamente nos convida a olhar pra dentro e depois a olhar pra fora. É duro. Dói. Mas é revelador. Vale o exercício. Amplia o olhar e nos ajuda a encontrar a cura para os nossos nós. E a entender o essencial.


*@nanedesousa é jornalista, especialista em Linguagem, Cultura e Mídia pela Unesp, e integra as antologias Tempo Insólito (Ed. Scortecci , 2018), O vazio não está nem quando é silêncio (Ed. Mireveja, 2020) e Quarentena (Ed. Chiado Brooks, 2020)

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