Dias de reclusão


Foto: Depositphotos

*Mônica Messias

Após longa temporada aprisionada, sem direito a banho de sol, com visitas controladas e sob ameaças constantes, finalmente, consegui me libertar.
Assim que uma infecção me condenou, fui colocada numa ala de pacientes de periculosidade máxima. Era passada para a ala de tratamento menos intensivo à medida que apresentava melhora no meu comportamento orgânico. E nessa foram 45 dias de reclusão.

A técnica separou meu coquetel de medicamentos e foi conferindo comigo, um a um. Abriu o primeiro. Sem reação. Abriu o segundo. Espantou-se com o tamanho do comprimido e exclamou: Nossa, você consegue engolir comprimido desse tamanho? Isso é um “estrupo”! Caí na risada. Falei que o outro era ainda maior e tomava todos de uma vez só. Abriu o terceiro. Ficou perplexa. Para meu delírio, ela solta esta: Mas isso é um “estrupo” coletivo!

Na UTI semi-intensiva, eu continuava sendo monitorada por aparelhos. Numa das aferições de outra técnica, já de madrugada, reclamei de dor de cabeça.

Ela apertou um botão, o manguito do aparelho de pressão inflou, desinflou. A pressão estava normal. Pedi-lhe um analgésico para não conviver com dor à toa. Ela o buscou na farmácia.

Quando chegou com o medicamento, pedi-lhe o favor de aferir a pressão novamente. Minha dor estava mais forte. Ela retrucou: “Mas eu já aferi faz pouco tempo”. Insisti, alegando que minha dor estava pior. Ela continuou com a má vontade: “Mas não tem nem 15 minutos que eu aferi”.

Meu sangue ferveu. Controlei-me até onde deu. Sem aumentar o tom de voz, dirigi-me à sujeita e perguntei pausadamente: “Dá pa-ra vo-cê a-per-tar a po-rra do bo-tão, por fa-vor?”. Funcionou.

Nem sempre palavrões são feios, mas, sim, mágicos! Histórias hospitalares… Tenho uma coleção delas.


*Sabores, sons, toques, sensações diversas me fazem feliz. Imagens? Não necessariamente. Vejo felicidade na simplicidade das coisas e pessoas, enfim, nos momentos. Eu me chamo Mônica.


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