Eu, minha mãe e a Hebe

Foto: Arquivo pessoal
Foto: Ana Canêdo não conheceu a Hebe pessoalmente, mas não resistiu ao registro com este totem, na sede do SBT.

*Ana Canêdo

“Ana Lúúúcia, pode vir que a Hebe já está chegando!” Era assim que minha mãe, já doente, me chamava toda segunda à noite. No aconchego de sua cama, muitas vezes de mãos dadas, a gente assistia ao programa da famosa loira, comentava o look do dia, as jóias, debatia os temas da noite, comia pipoca… Ríamos e chorávamos juntas. Era um alívio na rotina dela, cheia de remédios, fisioterapia e restrições alimentares.

Dona Ione e Dona Hebe, duas mulheres admiráveis. Viveram em mundos completamente diferentes, mas tinham características marcantes em comum, como a generosidade e a fé. Cada uma com o ‘seu jeitinho’, elas tornaram melhor a vida de muita gente.

Na semana passada, quando comecei a assistir à série que mostra a trajetória da apresentadora, as recordações me invadiram. Eu realmente gostava muito dela. Para além do figurino extravagante e da postura debochada, eu a admirava pela coragem, autenticidade e, sobretudo, alegria de viver. Depois que minha mãe morreu, há quase 13 anos, eu podia ouvir nitidamente aquele chamado dela para ver o programa. E demorei algum tempo para conseguir assisti-lo novamente. Desta vez, sozinha.

Anos depois, quando a apresentadora morreu, chorei como se tivesse perdido alguém próximo. Na época, publiquei um texto contando como aquela notícia tinha mexido comigo. E como, naquele dia, tinha batido uma saudade danada. Das duas, da Hebe e da minha mãe. Exatamente assim me senti quando terminei de assistir à série.

Ao relembrar a história da menina de Taubaté que virou um ícone da televisão brasileira, fiquei pensando em como é importante viver a vida bem, pois ela passa rápido e pode ser mais curta do que gostaríamos – a nossa e a dos que nos cercam. E também refleti sobre como é fundamental distribuir amor e demonstrar afeto, priorizar momentos com quem amamos e criar memórias. Afinal, são estas lembranças que nos ajudarão a viver, quando a saudade de alguém querido que partiu apertar o peito.

P.S.: Dedico este relato a minha amiga Fabricia Hamu e a tod@s que, assim como eu, aprendem diariamente a viver sem a presença física de suas mães. Pra mim, a melhor forma de honrar nossas mães que partiram é vivendo uma vida boa, plena e digna.

*Ana Canêdo é eclética em quase tudo, como uma geminiana ‘raiz’. Formiga com espírito de cigarra, adepta da filosofia ‘work hard’ ‘play hard’. Mas, mais do que isso, fortemente guiada pelo sentimento de que a vida é breve pra ser limitada. E assim, sigo sendo ‘muitas’ e buscando ser, cada vez mais, eu mesma. E hoje, sou muito muito grata por isso.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *