Abre o pote

Ana de Rezende no Blog Vida de Adulto
Foto: Divulgação

*Ana de Rezende

Como assim você não guarda? Fecha os olhos, respira fundo, algumas vezes. Até que aquele pôr do sol mágico enquanto dirigia venha do fundo de sua memória. Elas estão lá, todas as sensações boas, as pessoas, os abraços que renovam, as risadas das crianças quando fazemos cosquinhas, tudo armazenado em potinhos.

Eu me lembro que era uma brincadeira que fazíamos em cima da cama dos meus pais e, depois, com os meninos quando pequenos. Posso ouvir as gargalhadas até doer a barriga, as minhas, as deles. Até o cansaço bom que dava depois, sinto.

Tenho uma memória bem privilegiada, eu sei, lembro do cheiro que vinha da cozinha quando o meu pai fazia papa de milho.

Do barulho da máquina de costura, enquanto minha mãe costurava meu vestido de 1ª Comunhão. Do cheiro do talco que a minha bisavó usava. Do cheiro da minha avó, nunca me esquecerei do cheiro da minha avó.

Das borboletas no estômago de cada vez que me apaixonei. Lembro das trocas de olhares de uma noite. O peso de pequenos corpinhos sobre o meu colo, enquanto os embalava na rede. Os olhos iluminados de felicidade dos meninos quando estavam brincando com seus amigos, pulando nas piscinas: “Olha, mamãe, vou ‘migulhá’.” As primeiras palavras com as sílabas e fonemas trocados.

Quando fecho meus olhos, posso até sentir o melhor beijo que já beijei.

O toque, a mão. Ouço as risadas e encontro o suporte que compartilhei com amigos. Nós guardamos o que é bom aqui dentro. Só que, às vezes, nos apegamos demais à dor. Ou, talvez, essa magia da memória afetiva esteja em potinhos fechados demais.

Parece que fomos treinados para sermos “infelizes para sempre” porque desejamos a utopia do “felizes para sempre”. Em todos os lugares e espaços de nossas vidas. Fecha os olhos, escuta, é o som das ondas arrebentando, sente o vento. Abre o pote.


*@anafrezzendenutri é mulher, mãe, nutricionista, professora e doula. Escrevo para não sufocar, para amar, sentir, significar e ressignificar. Escrevo.

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