Uma receita de amor

Anete Pitão escreve sobre Receita de Amor e mingau
Foto: Arquivo pessoal

*Anete Pitão

Minha mãe toma mingau todo dia. Ela prefere, sem disfarçar, o da minha irmã.
Sempre muito elogiado: “Como é bom esse mingau”. Nas vezes que faço, e tenho feito mais vezes, fico ali do lado tentando encontrar uma medição de prazer, mas o elogio não vem. Ficou bom mãe? Lancei!

— Ficou sim, respondeu a lady que jamais deixaria uma filha sem uma resposta amorosa.

O nascer do sol traz sempre a expectativa de novos diálogos. De pouquinho em pouquinho vamos acostumando com perguntas desencontradas, contextos fantasiosos ou fatos que se misturam sem qualquer relação.

Fomos treinados pelo meu pai, velho Pedro, que foi morar no Alto num dia 1º de janeiro, às 6 da manhã. Mas a realidade parece que nos empurra sempre pra crença de que não é bem assim. E nos agarramos num fio de lucidez pra seguir achando que não há tantas mudanças.

Talvez esse auto engano seja o colo quente que não se tem mais pra quem pedir. Talvez seja a forma da gente viver mais um dia. Achando que noutro os raios da consciência surgirão com vigor. Não é bem assim. Amanhece de novo.

Prepara o mingau no capricho para satisfazer um paladar que merece todo prazer.

E lá vem: “Nossa que mingau gostoso”.
Não estimulei, espontaneamente dessa vez acertei.
Elogio melhor que foto em fim de filme.
Melhor que beijo na boca.
Melhor que promoção na empresa.
Melhor que qualquer outra coisa que possa querer comparar.
No trato miúdo da vida, no cotidiano nu escancarado, vai revelando o que de fato tem valor.
Acho que as colheradas de leite e da massa entraram na medida certa.

Esse daí na foto não recebeu comentário. Foi tomado em silêncio. Não ficou tão bom quanto o da minha irmã, que acerta sempre. Estou esperando ela levantar pra me dedicar e tentar fazer um bem gostoso. Quando as pernas tão bambas, o corpo falha, a mente turva, a vida vai surtindo efeito com pequenos prazeres.

Hoje vou me esforçar mais pra fazer o melhor mingau, para que sinta amor também em colheradas. Não vale na vida entregar tempo para o que vai te tirar da presença no que de fato importa. Essa lição eu aprendi. E você, me conta qual foi o teu mingau?


*@anetepitao tem o olhar como imã de histórias. Vê no cotidiano a grande chance para transformações positivas do SER. Jornalista e produtora de cinema. Faz mentoria de comunicação como ponte pra que as pessoas usem seu poder de influenciar pro bem.

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