Reflexo no espelho

Foto: Anna Shvets / Pexels

*Patricia Chirico

Hoje me olhei no espelho. Não com a displicência que costumo me olhar pela manhã ou após o banho. Mas enxergando minha alma através das rugas adquiridas. Como uma narrativa da minha história.

Li frases que me orgulham, outras das quais me envergonho, mas nenhuma que me devore por culpa.

Vi uma infância sofrida, mas feliz. Onde o amor da família unida alimentava a barriga, às vezes vazia.

A adolescência marcada por traços irregulares, tais como as incertezas de uma época de curiosidade sufocada pela falta de idade. Ainda assim, pude enxergar a coragem que me fez romper essa barreira em busca dos meus sonhos. Ousadia que me poupou, mais tarde, anos de terapia.

A fase adulta preencheu a maior parte do rosto, roubando, aos poucos, o vigor da tez macia e firme. Sem violência. Com a naturalidade do amadurecimento. A responsabilidade com o trabalho e a casa. Cada noite consumida pela preocupação com os filhos.

Uma linha em especial me chamou a atenção. Reta e contínua, lembrando os aparelhos hospitalares que mostram a falta das funções vitais. Ah que saudade do meu pai!

Mas minhas rugas não foram marcadas só por tristeza. Nos cantos dos olhos e da boca pude ver as alegrias. Formatura, carreira, casamentos e os filhos.
Percebi que nosso rosto não carrega idade e sim, vivências. Que talvez, as pessoas que lutam contra o envelhecimento o fazem não por vaidade, mas por não se orgulharem da sua história. Querendo ocultar em plásticas nem sempre bem-sucedidas, fases mal-vividas.

Não há forma de disfarçar uma página arrancada de um livro. Se tais mudanças passarem desapercebidas para o outro, jamais enganarão sua consciência.

Por isso é tão importante vivermos cada momento como se fosse único. Pensar nas renúncias mais do que nas escolhas. São elas que sobrecarregam a balança do arrependimento junto com os silêncios negligentes ou as palavras vazias. Palavras escritas podem ser apagadas, mas nunca as faladas. Essas ecoam por uma eternidade.

E ainda que você consiga driblar o tempo, ele te alcança lá na frente. Inorexável. Seja por seu travesseiro, outro juiz da vida, ou por um espelho.


*Sou contadora por formação, mas por opção, agora, só conto histórias em prosa e verso. Sou autora e organizadora das coletâneas A Tantas Mãos e Crônicas Pandêmicas, ambas publicadas pela Editora Viseu.  Sou @pattychirico, do  @palavreiraemflor e do @chiriquices.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *