O tempo que me trouxe

Voltei a escrever: texto de Priscila Silva
Foto: Arquivo pessoal

*Priscila Silva

Voltei a escrever. Não hoje ou há um ano atrás, há um tempo, mas o fato é que voltei a escrever. E isso, apesar de ser totalmente irrelevante para alguns, para mim constitui a espinha dorsal da minha consciência a meu próprio respeito.

Olho para a folha, escrevo qualquer pensamento, tempo depois encontro o papel rabiscado:

– Sou eu, reconheço em minha alma que já é outra.

Então percebo meu caminho escrito: a letra sempre pulsou, desde a primeira leitura de uma sílaba aos três anos de vida (fato que mainha contava e repetia orgulhosa), até o momento que, por alguma loucura, picotei uns cem poemas escritos até a juventude.

Quando desisti da escrita, a angústia de tê-la esteve presente, inda que latente. Até mesmo agora, enquanto relembro este caminho, enquanto faço pausas para escrever, é este ato que me coloca em conexão com o momento presente (mesmo que seja uma memória do passado) e aguça a percepção de mim mesma.

(Outra pausa)…

Diante disso, não há fuga: é mergulho. São máscaras arrancadas, por vezes, à força, através da tinta, é o fluir dos sentidos à flor da pele… E também é cansaço, confesso. Cansaço, porque sei que há ouvidos surdos e almas ocas… O que há de se fazer?!

Escrevo. É tudo o que sei a respeito do mundo que observo, não a fim de mudá-lo (um pouco, talvez?), mas para que meu olhar sobre a minha estrada seja mais cuidadoso. Escrever é o meu grito no mundo, a minha pausa, é o momento presente capturado em versos, é o resgate de mim mesma em cada linha e entrelinha… E, enquanto escrevo estas palavras, eis a percepção: foi o tempo que me trouxe.

Faço dele, meu professor, ao mesmo tempo (que ironia, não?). Vivo-o também através da escrita, com todos os percalços que já me foram impostos e os que ainda encontro. Afinal, ao escrever e tomar consciência de mim, reconheço a brevidade disso tudo. Escrever é arrancar a própria pele e encontrar minha própria hipocrisia. ‘Tudo é um risco’, me diria o tempo, ‘e tudo é uma dádiva e um só tormento’.

Pois é, voltei a escrever e até poderia escrever mais, contudo, para mim é o bastante.
(Por enquanto…)


*@prisilva3.1 , recifense, 32 aninhos, mãe de dois anjos sapecas, casada, e escritora iniciante, fazendo das letras meu caminho, acho que é isso mesmo.

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