Não sou invisível…

Foto: Arquivo pessoal

*Carla Caroline

A primeira vez que isso aconteceu (e eu percebi) foi há uns seis anos. Naquele dia, estávamos em uma loja, eu e meu então namorado (hoje marido), em uma loja de roupas, na Praça da República, em São Paulo. Éramos apenas nós e dois vendedores no local. Ele foi atendido desde o princípio. Eu só queria ver uma calça jeans. Mas, depois de certo tempo, sequer fui notada.

Muito brava e chateada, causei uma situação desconcertante no local e disse que ninguém levaria nada dali. Nem eu e muito menos ele. Em seguida, ouvi de um dos vendedores: “Não sabia que você estava com ele. Se soubesse, teria te atendido”. Sai de lá triste, reflexiva e percebi que mesmo tendo a pele escura e sendo fácil de ser notada, eram constantes as vezes em que escutava frases, como: “Desculpe, não havia te visto”.

Aquele momento me remeteu há anos, em Ourinhos (SP), minha cidade natal, em que passei por uma situação parecida. Comecei a notar, que em muitas ocasiões, alguém “não havia me visto”, me notado ou me tratado como ser humano.

Talvez para você, que lê isso e não compreende muito bem as nuances do racismo e do preconceito, possa parecer vitimização. Porém, não é! Ninguém deseja ser invisibilizado, ainda mais aqueles que são vistos diariamente nas estatísticas e que constam como mais de 50% da população brasileira.

No entanto, recentemente, voltei a me sentir invisível. Na última semana tentei comprar um sapato. Parece coisa boba, né? Mas, saí do estabelecimento sem o calçado. O motivo? Entrei, peguei o sapato, experimentei e não pude concluir a compra. Mesmo os vendedores estando disponíveis, com os braços cruzados e sem atender ninguém, também não fui atendida.

Mais uma vez, me senti invisível. Depois de muito respirar e ficar extremamente magoada com a situação, lembrei-me que: por mais que a sociedade tente, diariamente, não me enxergar ou não me reconhecer, sempre estarei aqui. Estarei com os que vieram antes de mim e com os que estão chegando junto e depois de mim. Aliás, sempre permanecerei aqui, pois não sou invisível. Não… eu não sou invisível!

*Carla Caroline escreve aos domingos, a cada 15 dias. Quer saber mais sobre ela? Leia aqui.

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