Somos tantas…

Carla Caroline no Blog Vida de Adulto
Foto: Arquivo pessoal (Arte by @luanalobo_tatuadora)

*Carla Caroline

Há dias em que paro e fico horas pensando na criança, na adolescente e na jovem que fui. Além disso, tento entender como que aquelas “Carlas” influenciaram e influenciam a mulher que tenho me tornado a cada dia.

Quando me pego a pensar, lembro-me que demorei anos, creio que uns 20, para entender que o preconceito que sofria não era devido à minha situação socioeconômica ou por não ter a figura de um pai presente, mas tudo tinha relação com a tonalidade da minha pele.

Levei tempos e meses de terapia para compreender os motivos que faziam com que, mesmo minha mãe dizendo que eu era linda, os meninos gostavam de ser meus amigos, porém jamais diziam que gostavam de mim ou me escolhiam como par.

Ao longo dos anos e convivendo com pessoas múltiplas, tive a oportunidade, por meio de leituras, conversas, documentários, palestras e, especialmente, amigues, de descobrir as faces do racismo e do machismo. Nos últimos sete anos, “levantei o tapete” e percebi a quantidade de “poeira” que estava ali, escondida.

Uma “sujeira” cheia de mágoas e feridas. E, também, com muita coragem, resiliência e determinação. Pode não parecer, mas sinto muita vergonha. No entanto, a vontade de mostrar que uma mulher preta pode ser mãe, profissional, companheira, amiga e tudo o que ela quiser, é muito maior.

Confesso que há dias que a exaustão por uma luta constante dói. O sono bate e a energia cai. Como diz minha mãe: “Peça para o seu anjo da guarda caminhar contigo”. O pedido é feito e, assim, seguimos. Na base da fé e da persistência.

Admitir que ama a filha, mas detesta ser mãe, não é fácil. Aceitar que é muito mais feliz quando está trabalhando e recebe elogios pelo resultado de um bom trabalho é mais saboroso do que quando falam sobre seus “dotes domésticos”, é quase uma heresia.

Mesmo diante de todos os desafios, afinal, são eles que nos levam adiante, é importante que tenhamos orgulho de nossa trajetória, que honremos cada tombo, acolhamos os erramos e, acima de tudo, aceitamos que somos tantas. Somos múltiplas e permeadas por fases como a Lua!


*@carlacaroline25 é colaboradora fixa do Vida de Adulto. Escreve aos domingos, duas vezes por mês.

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