Fé, raiva e despedidas…

Carla Caroline escreve sobre "Fé, raiva e despedidas"
Foto: Arquivo pessoal

*Carla Caroline

São Paulo, 31 de maio de 2021. 21h16. Após dias pensando sobre qual assunto escrever, decidi deixar nessas linhas uma carta de despedida. Mas do que estou me despedindo? Não sei. Talvez seja a maneira encontrada de dar adeus ao mês que parecia interminável; à pandemia que nunca chega ao fim e que a cada dia vitima mais pessoas ou uma forma de colocar para fora o misto de raiva e dor que me assola.

Há dias em que a raiva me consome de uma maneira inexplicável. Quero urrar com todo o meu âmago. De longe, vaguei pelos becos da dor que aqueles lares passaram/passam e, infelizmente, sequer puderam proporcionar a desejada despedida final.

Porém, abafo tudo isso no quentinho da minha alma. Afinal, estou em um lugar de muito privilégio, saudável, sob um teto, empregada, com comida à mesa e amor espalhado pela casa. Mesmo diante de todas as coisas boas, ainda vivo em um país cuja fome e o desemprego aumentam absurdamente. Dói. Dói muito. Então, percebo: “É isso… Desejo me despedir de quem se foi nos últimos meses e que não puderam contar com o ‘até logo’ de seus familiares e amigos”.

Assim como muitos de vocês, caros leitores, perdi pessoas conhecidas.

Felizmente, ainda (sim, ainda. Não sei até quando estarei livre disso) não vi nenhum familiar ou amigo próximo ser levado pelo vírus. No entanto, sei que quando visitar Ourinhos, minha cidade natal, e passar por alguns lugares, sei que pessoas que encontrava e falava amenidades, não estarão mais ali.

Gostaria de finalizar de maneira leve, dizendo que tudo vai ficar bem (acreditamos que vai, né?). Contudo, tudo o que sinto são os olhos marejados (mas as lágrimas não vão cair, detesto chorar) e o coração apertado, mas com uma fé absurda. É a fé de que tudo vai ficar bem que me leva de volta para o lugar das boas energias, do olhar positivo e da passividade.

Pelo visto, consegui controlar a raiva. Ufa…


*@carlacaroline25 é colaboradora fixa do Vida de Adulto. Escreve aos domingos, duas vezes por mês.

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